Tag: direção de arte - Melhor Ângulo

É curioso notar como a maior parte do trabalho cinematográfico está concentrada nos bastidores, não? Obviamente a grandeza dos filmes vai muito além dos estúdios e da frente das câmeras. Eu particularmente sou apaixonado pelo trabalho dos diretores de arte (e aqui já vale mencionar os figurinistas, maquiadores e designers que trabalham em função desse profissional), aquele pessoal encarregado de criar os cenários, roupas, maquiagens e produtos originais capazes de trazer uma grandeza ainda maior para o filme, principalmente através dos detalhes.

No caso dos diretores de arte e dos designers de produção, há a missão de garantir que cada vaso de flor, cada peça de roupa e cada par de cílios postiços estejam, além de esteticamente agradáveis, dentro de suas funções plásticas; sejam essas de representar um período histórico ou a vida extraterrestre, por exemplo.

As evidências mais marcantes de que os filmes históricos não se passam no mundo contemporâneo está na direção de arte. Nesses casos cabe ao designer de produção não deixar que o filme erre de época, caso contrário o Duque de York usará apenas uma cueca de couro e uma capa esvoaçante (ok, exagerei).

A influência do trabalho desse profissional dentro do cinema pode estar também na hora de criar um mundo totalmente novo, com sua própria flora, fauna e modo de vestir, descrevendo ambientes únicos e maravilhosos. Um caso bastante importante é o do filme Avatar. Sem a excelência desse trabalho o filme se reduziria grandiosamente caso Pandora fosse um planeta sem graça e totalmente comum – ou pior, nada crível. Ou ainda serve para trazer uma ideia fantasiosa para o filme, como em Alice No País das Maravilhas, O Discurso do Rei, Desventuras em Série ou Sweeney Todd. Nesse último é bem evidente que ninguém se vestiria como os personagens do filme, independente da época, e está aí e em outros detalhes, como o sangue intencionalmente falso, a “ideia fantasiosa”.

Ainda vemos a atuação do diretor de arte na hora de fazer com o que o roteiro seja um pouquinho menos óbvio. Em Cisne Negro, por exemplo, a decoração infantil do quarto de Nina, a madeira desgastada no chão da casa e o excesso de espelhos que refletem a dupla personalidade da protagonista dizem muito sobre a personagem e sobre a história.

Não nego, já vi muitos filmes só pela direção de arte. Em conjunto com uma fotografia marcante um filme pode ser tornar extremamente atraente independente do seu roteiro falho ou de sua direção fajuta. Sem a excelência deles os filmes poderiam não ser a fuga da realidade que as vezes buscamos. Então se você não valoriza muitos esses detalhes, preste um pouquinho mais de atenção neles, você pode se surpreender com a grandeza do trabalho desse profissional.

Compartilhe:
Facebook Twitter Pinterest Google+

Cisne Negro é um filme encantador… ou melhor: encantador e perturbador. Encantador por ser perturbador.

Ok, o que eu quero dizer é que o filme do Darren Aronofsky é cumulativamente qualitativo, justamente por que consegue muito bem fazer o seu papel: sutilmente torturar o público e botar ele pra raciocinar. Partindo disso, é pela excessiva quantidade de qualidades do filme que o escolhi para fazer um estudo de obra. Mas dessa vez para falar primariamente da fotografia do filme, até mesmo em função de outros fatores, como a direção de arte.

Aronofsky busca alcançar efeito no espectador através de metáforas e indicações visuais. Em Cisne Negro, a direção de arte é super discreta e incrivel. Há 3 meses comentei brevemente sobre o maravilhoso design de produção do filme no meu post sobre Direção de Arte, e a forma como ela é construída para fornecer informações sobre a personagem. Mas enfim, o trabalho é excelente e cerca desde cenários calorosos até o figurino de Nina que passa do branco para o preto, conforme a história cresce.

Entretanto, de que adiantaria todo esse trabalho se ele não fosse bem aproveitado? É aí que entram os cinematografistas para enquadrar as imagens, coordenar as luzes dos cenários, estabelecer uma paleta de cores, e etc. No caso de Cisne Negro, temos uma fotografia bastante inocente e sutilmente viciada. Nas cenas de dança são usados planos médios em movimento, ou seja, a câmera capta os personagens geralmente da cintura para cima e está sempre dinamizando com a dança, geralmente no sentido contrário, através de travellings. E isso é magistral, quem assistiu sabe como é gratificante ver os personagens dançando no filme. Além de ser extremamente funcional nas cenas finais (que mostram Nina sobre o palco), já que a câmera tem total foco nas reações da atriz, e não na apresentação em si. Enquanto isso, quando a protagonista está indo a algum lugar, a câmera a segue, como se estivesse a perseguindo, gravando de forma bastante intrusiva.

Plano médio

Entretanto, essas relações apresentadas não são generalizações. Algumas cenas do filme apresentam câmeras diferentes, alguns plongeés, outros planos médios recortados mas principalmente close-ups nas reações de Nina. Em outros casos, algumas cenas de danças são precedidas ou alternadas por planos gerais (e em alguns casos por planos de situação) para apresentar o meio em que a ação ocorre. E notem como a cena mais “abusada” do filme é gravada com certa distância, como se a personagem estivesse sendo observada.

São detalhes que parecem insignificantes, mas que constroem uma narrativa rica e prática para o nosso consciente (e subconsciente); uma contribuição elegante da combinação design de produção + fotografia (cinematografia). Vou resumir essa ideia em duas imagens de uma cena que dura menos de 3 segundos:


Eu poderia ficar falando por horas sobre as qualidades de Cisne Negro, mas com esse post vocês podem ter um gostinho do que o filme tem a oferecer. Vou deixar vocês descobrirem sozinhos as outras qualidades dele (e são muitas, ok?). Se não viu ainda, dá play aí no trailer:

Compartilhe:
Facebook Twitter Pinterest Google+