Categoria: Outros - Página 3 de 4 - Melhor Ângulo

Curtindo a Vida Adoidado é, definitivamente, a representação máxima dos clássicos da Sessão da Tarde. Destacando-se na era moderna de Esqueceram de Mim e Os Goonies, o filme de John Hughes traz uma exploração superficial da adolescência dos anos 80. Mas fique tranquilo, não há nada daquela história de drogas, álcool e festas no Ensino Médio. Ainda que até certo ponto seja politicamente incorreto, na verdade ele encara a adolescência do ponto de vista que a maior parte dos jovens a faz, e exponho isso com uma fala do próprio filme: “A vida passa rápido demais, se você não parar e olhar para ela de vez em quando, pode acabar perdendo”.

O longa acompanha um dia de Ferris Bueller (Matthew Broderick), que tem um grande carinho pela vida e quer aproveitá-la ao máximo. Entretanto, sua noção de aproveitar a vida é: nada de escola (“O dia está lindo demais para passá-lo na escola”). Por isso, ele engana seus pais fazendo toda a cidade acreditar que ele estava gravemente doente, e durante o dia, sai para se divertir pela cidade com sua namorada Sloane (Mia Sara) e seu melhor amigo – com tendências depressivas – Cameron (Alan Ruck). Enquanto isso, o diretor de sua escola (Jeffrey Jones) tenta mostrar para o mundo a deficiência moral do protagonista.

Hughes retrata essa história com um roteiro extremamente simples, sem muitas reviravoltas e complicações reais, fazendo com que a história do dia de (e aqui me sinto livre para acreditar que tenho intimidade com o personagem) Ferris pareça desinteressante pela falta de ambição e honestidade com a sociedade; entretanto, ele funciona satisfatoriamente bem dentro de seus 100 minutos. Apesar de Ferris ser o “popular” da escola, o filme abandona estereótipos (apesar de citá-los como se estivessem presentes, o que é mais interessante ainda), e cria um universo colegial um tanto caricato para o “vilão” (que não pode, e não deve, em momento algum, ser levado a sério, como Hughes faz questão de deixar claro), favorecendo momentos divertidos pela abordagem, mesmo que ela nem sempre funcione.

Curtindo a Vida Adoidado ainda adota um recurso interessante (como o criado por Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa): permitir que Ferris converse com o público, o que, além de divertido, amplia o relacionamento que temos com um dos personagens mais icônicos do cinema família (ops, Sessão da Tarde). Através desses diálogos e de suas encaradas para a câmera em diversas situações, conhecemos sua natureza, que nem sempre é lógica, racional e moralista, mas extremamente carismática, ainda que o filme não o explore muito profundamente (como eu disse lá no inicio, o roteiro é um tanto superficial). Sabemos então que para ele, “curtir a vida” é aproveitar coisas pequenas: correr de carro pela rodovia, enganar professores, cantar “Twist and Shout” no meio de uma multidão, visitar museus, observar a cidade do alto, nadar na piscina, e, basicamente, celebrar a vida com os amigos. Realmente parece chato e entediante, mas ver a satisfação dos personagens ao encarar essas pequenas coisas, e se divertindo até nas piores situações, é gratificante. Ainda é curioso que o filme passe voando (100 minutos só passaram tão rápido assim quando cheguei em casa tarde e fui direto para a cama), graças a edição, fazendo jus à ideia que o filme afirma: que a vida passa rápido demais.

Talvez o filme de Hughes não seja grande coisa no conceito cinematográfico. Além das questões citadas, o diretor e roteirista ainda permite que as ações do diretor Ed nunca interfiram de verdade nos planos de Ferris, o que é um problema, e a história ainda tem algumas resoluções mal estabelecidas (e algumas outras reclamações e elogios). Mas obviamente não é pelas falhas que o filme se tornou um clássico, mas por sua ingenuidade e pelo sentimento de renovação diária que a história tende a fornecer ao público, independente da idade.

O filme é de 1986 e seu título original é Ferris Bueller’s Day OffVocês podem encontrá-lo no Netflix.

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Cisne Negro é um filme encantador… ou melhor: encantador e perturbador. Encantador por ser perturbador.

Ok, o que eu quero dizer é que o filme do Darren Aronofsky é cumulativamente qualitativo, justamente por que consegue muito bem fazer o seu papel: sutilmente torturar o público e botar ele pra raciocinar. Partindo disso, é pela excessiva quantidade de qualidades do filme que o escolhi para fazer um estudo de obra. Mas dessa vez para falar primariamente da fotografia do filme, até mesmo em função de outros fatores, como a direção de arte.

Aronofsky busca alcançar efeito no espectador através de metáforas e indicações visuais. Em Cisne Negro, a direção de arte é super discreta e incrivel. Há 3 meses comentei brevemente sobre o maravilhoso design de produção do filme no meu post sobre Direção de Arte, e a forma como ela é construída para fornecer informações sobre a personagem. Mas enfim, o trabalho é excelente e cerca desde cenários calorosos até o figurino de Nina que passa do branco para o preto, conforme a história cresce.

Entretanto, de que adiantaria todo esse trabalho se ele não fosse bem aproveitado? É aí que entram os cinematografistas para enquadrar as imagens, coordenar as luzes dos cenários, estabelecer uma paleta de cores, e etc. No caso de Cisne Negro, temos uma fotografia bastante inocente e sutilmente viciada. Nas cenas de dança são usados planos médios em movimento, ou seja, a câmera capta os personagens geralmente da cintura para cima e está sempre dinamizando com a dança, geralmente no sentido contrário, através de travellings. E isso é magistral, quem assistiu sabe como é gratificante ver os personagens dançando no filme. Além de ser extremamente funcional nas cenas finais (que mostram Nina sobre o palco), já que a câmera tem total foco nas reações da atriz, e não na apresentação em si. Enquanto isso, quando a protagonista está indo a algum lugar, a câmera a segue, como se estivesse a perseguindo, gravando de forma bastante intrusiva.

Plano médio

Entretanto, essas relações apresentadas não são generalizações. Algumas cenas do filme apresentam câmeras diferentes, alguns plongeés, outros planos médios recortados mas principalmente close-ups nas reações de Nina. Em outros casos, algumas cenas de danças são precedidas ou alternadas por planos gerais (e em alguns casos por planos de situação) para apresentar o meio em que a ação ocorre. E notem como a cena mais “abusada” do filme é gravada com certa distância, como se a personagem estivesse sendo observada.

São detalhes que parecem insignificantes, mas que constroem uma narrativa rica e prática para o nosso consciente (e subconsciente); uma contribuição elegante da combinação design de produção + fotografia (cinematografia). Vou resumir essa ideia em duas imagens de uma cena que dura menos de 3 segundos:


Eu poderia ficar falando por horas sobre as qualidades de Cisne Negro, mas com esse post vocês podem ter um gostinho do que o filme tem a oferecer. Vou deixar vocês descobrirem sozinhos as outras qualidades dele (e são muitas, ok?). Se não viu ainda, dá play aí no trailer:

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Não é muito difícil perceber que nos últimos anos o cinema vem tendo poucas heroínas realmente marcantes. Sempre há uma ou outra tentativa de introduzir uma nova Lara Croft, mas poucas funcionam bem. Em março desse ano foi a vez do filme Jogos Vorazes (The Hunger Games). Jennifer Lawrence (Inverno da Alma, X-Men: Primeira Classe) trouxe com excelência e muito carisma a sua Katniss, em torno de uma história bem contada, que não pega leve na emoção e nos momentos intensos.

Baseado na história dos livros de Suzanne Collins, Jogos Vorazes acompanha a miserável Katniss quando ela se vê obrigada a participar de jogos produzidos pela Capital para proteger sua irmã mais nova. E o que diferencia os Jogos Vorazes das Olimpíadas que temos hoje? Os 24 participantes devem lutar até a morte até que reste apenas um. E por aí vai…Mas fique sabendo que ideia principal do filme é mostrar a distopia criada pela sede de poder do governo, e isso o filme faz com bastante eficiência.

A experiência do diretor Gary Ross fez com que a qualidade desejada para o filme fosse sempre muito bem aplicada. Desde a direção de arte que passa do colorido a cores mais simples, a trilha sonora calorosa, a fotografia trêmula, a montagem que intercala entre o lento e o veloz e outras infinidades de atributos! Mas o mais interessante é a essência da história que capricha em momentos originais e extrai dos atores grandes atuações, tudo para mostrar a brutalidade de uma sociedade não muito distante da nossa sociedade global, com enfase na americana, onde o patriotismo é como lei.

Jogos Vorazes é bem creditado em quase todos os seus elementos componentes. O design do filme todo trabalhado na tecnologia da capital em contraste com a pobreza do Distrito 12 – que chega a ser meio bizarro nas roupas e maquiagens, mas que funcionam muito bem ao intensificar a ideia de que são pessoas sem credibilidade e dignas de pena por aplaudirem espetáculos do tipo. A trilha sonora muito bem encrementada e que traz um “quê” mitológico, que é ideal para certos momentos, como quando Katniss caça e a música meio fabulesca nos faz lembrar das canções dos elfos – seres conhecidos por seus dons com o arco e flecha e caça.Em contrapartida também há alguns efeitos mal acabados e bastante fajutos, mas que dá para deixar passar.

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Quando completei 15 anos, em 2009, eu tive a sorte de ser presenteado com a coleção de livros Desventuras em Série, do Lemony Snicket. Curioso que dois dias após o meu aniversário eu precisei ficar de cama por uma semana depois de uma operação às pressas. Para não ser dominado pelo tédio resolvi ler todos os livros da série e no fim dessa mesma semana descobri que eu havia encontrado uma das histórias mais divertidas e interessantes das que hoje fazem parte da minha coleção.

A coletânea infantil – sim, é para crianças mas foi muito bem recebida pelos jovens e adultos – conta a história dos três jovens Baudelaire, Violet, Klaus e Sunny, que entram em uma aventura pra descobrir o mistério por trás da morte de seus pais enquanto fogem de Olaf, um conde nada corpulento que corre atrás da herança das crianças, e em cada livro acabam indo para uma família e cidade diferentes.

Vale a leitura pela condução rápida que o Lemony dá à história e que nunca deixa a trama se perder. E ele ainda abre portas pra conversar com o leitor – minha qualidade preferida nos seus livros; de vez em quando até explica a diferença entre o sentido figurado e literal das coisas. Mas o mais interessante é o modo excêntrico como ele trata as suas histórias: pro Snicket Desventuras em Séries é uma história triste e muito desagradável, e ele mesmo faz questão de anunciar isso em quase todos os livros da coleção; isso fica claro logo na primeira frase do primeiro livro, “Se vocês se interessam por histórias com finais felizes, é melhor ler algum outro livro”.

E a história também chamou a atenção de Hollywood! Vocês devem saber disso, já que é tradição anual o filme ser exibido na Sessão da Tarde da Globo. Em 2005 a coletânea foi para as telas em uma adorável adaptação protagonizada por Jim Carrey, Emily Browning e Liam Aiken – e conta até com uma pontinha da Meryl Streep. O filme é divertidíssimo e nele Jim Carrey está mais engraçado que em qualquer uma de suas comédias – e esse é o maior problema do filme já que nunca sentimos que as crianças realmente estão em perigo. Mas fica tudo bem quando o diretor, mesmo descaradamente, faz um excelente trabalho na hora de passar a excentricidade do Snicket e de criar um mundo fantasioso incrível e nada discreto apesar de sombrio.

A história completa é contada em 13 livros – o filme conta só a dos três primeiros – , mas não se assustem pois são muito pequenos. O maior deles tem 285 páginas, mas a relação entre os irmãos e a trama principal são tão interessantes que você consegue ler um dos livros em um dia sem se sentir cansado.

Se você  leu algum dos livros ou já assistiu ao filme, diga pra gente o que achou! Pra saber mais sobre a história dos três jovens vocês podem entrar no site da coleção ou no site oficial do filme.

Obs.¹: O nome original da serie e do filme é A Series Of Unfortunate Events.
Obs.²: O filme concorreu a quatro Oscars:  melhor maquiagem (ganhou esse), melhor figurino, melhor direção de arte (meu atributo preferido do filme) e melhor trilha sonora.

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